No Brasil, lecionar faz mal à saúde

Saude do trabalhador

O texto retrata um determinado nível de ensino (Ensino Superior), mas mostra como as condições de trabalho vai adoecendo os professores em suas atividades de ensino.

Texto retirado do Dossiê Nacional

PUBLICAÇÃO ESPECIAL DO ANDES-SN nª3

Intensificação e precarização do trabalho prejudicam qualidade do ensino e adoecem os professores. Transtornos comportamentais são as principais causas das licenças médicas

Por Washington Sidney 

A expansão desordenada do ensino público superior tornou o magistério uma atividade de risco. O aumento do número de turmas, da carga horária e de estudantes em sala de aula inviabilizou a relação professor-estudante, com graves prejuízos para a qualidade do ensino e para a saúde dos professores. Somem-se a isso o aumento da correção de trabalhos, em geral nos fins de semana, e as péssimas condições ambientais a que os professores são expostos e o resultado são licenças médicas em profusão.

Karla Estelita Godoy, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), enfrenta problemas recorrentes de garganta por causa de infecções adquiridas no trabalho. Ela atribui a doença ao aumento da carga horária nos últimos semestres, ao excesso de estudantes por turma e, principalmente, às salas de aula com janelas que não se abrem, o que a obriga a usar um aparelho de ar-condicionado sem manutenção. Os diagnósticos não deixam dúvida quanto à origem da doença.

“Consultei-me com diversos médicos nos últimos anos, quando esses problemas começaram. Alguns suspeitaram de processos alérgicos ou de infecções bacteriológicas ou virais em virtude de uma grande exposição a ambientes insalubres na universidade. Meu otorrinolaringologista sugeriu que eu pesquisasse a Síndrome do Edifício Doente, que é quando há grande incidência de doenças provocadas nas pessoas que frequentam o mesmo ambiente. Pesquisei e vi que vários estudos demonstram essa tese, cujos sinais podem ser encontrados no meu local de trabalho. Não sou só eu que tenho passado por isso, mas diversos colegas e estudantes”, conta. A docente também faz seu diagnóstico da situação: “O que está doente é o sistema educacional e é isso que nos adoece”.

Karla ministra oito horas de aula por semana, com uma carga horária que varia de duas a três disciplinas. Mas, por ser professora de Dedicação Exclusiva, tem diversas outras atividades acadêmicas que exigem dela permanecer nos mesmos ambientes e fazer uso consecutivo da voz, atendendo a orientandos (que não são poucos na graduação), coordenando projetos de pesquisa e participando de eventos em nome da universidade. “Em razão da quantidade excessiva de estudantes no primeiro semestre de 2013, foi necessário dividir uma turma, que contava com quase 90 inscritos. Isso fez com que dobrasse a carga horária da disciplina, que passei a lecionar de 11h às 13h e de 14h às 16h, às segundas e quartas-feiras. O desgaste foi grande e adoeci três vezes no semestre”, comenta.

Situações ainda mais graves enfrentam os docentes da área de saúde da universidade. A presidente da Aduff, Eblin Farage, conta que eles lidam com doenças infecciosas e arriscam a saúde no contato com secreções e com materiais perfuro-cortantes contaminados. “Alguns cursos têm laboratórios montados de forma provisória há anos. No mês passado tivemos notícia de que todos os laboratórios de determinado curso haviam sido condenados por um setor na universidade. Estamos tentando obter o laudo”, diz a professora. Segundo ela, há pouco tempo, no Polo Universitário de Rio das Ostras, uma professora passou mal em sala de aula e faleceu, o que dá uma boa medida do descaso dos dirigentes com a saúde dos principais agentes da educação.

Produtivismo

O incremento da lógica produtivista no meio acadêmico, com exigências cada vez maiores de desempenho nas pesquisas e publicações de artigos, agrava o estresse e ajuda a explicar por que os transtornos mentais e comportamentais ocupam lugar de destaque entre as doenças que mais levam os docentes ao afastamento por licenças médicas, conforme revelam estudos feitos em duas universidades.

A pesquisadora Adriana Modesto de Souza, mestre em Ciências da Saúde com especialização em Gestão de Saúde pela Universidade de Brasília (UnB), analisou 2.218 prontuários no Serviço de Assistência Médica (SAM) da instituição e constatou que 202 docentes tiveram licenças médicas entre 2006 e 2011, o que resultou em 15.108 dias de afastamentos. Vários docentes tiveram mais de uma licença no período.

Em sua tese de mestrado O perfil do adoecimento docente na UnB, Adriana catalogou algumas morbidades como justificativa para as licenças médicas, mas chamou sua atenção as motivadas por transtornos mentais e comportamentais e por problemas no sistema músculo-esquelético e tecido conjuntivo. As primeiras responderam por 71 lançamentos e 2.238 dias de afastamento. As segundas, com 74 lançamentos, resultaram em 2.527 dias de afastamento. A frequência de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais no período foi de 21 mulheres e 11 homens. No sistema ósteo-muscular e tecido conjuntivo, 23 mulheres e sete homens.

Adriana lamenta a perda amostral referente aos docentes aposentados e/ou afastados e cujos prontuários já não se encontravam no SAM. Salientou que, na época da pesquisa, o setor encontrava-se em processo de adequação ao que preconiza o Subsistema Integrado de Atenção à Saúde do Servidor Público Federal (SIASS) e com limitação de espaço físico para a organização dos prontuários. A dissertação está disponível para consulta no Repositório da Biblioteca da UnB.

Levantamento dos afastamentos por licença médica entre junho de 2010 e junho de 2013 na Universidade Federal Fluminense (UFF), feito pela Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (Progepe), mostra que houve 2.053 casos de adoecimento de docentes, o que resultou em um total de 81.374 dias de afastamento no período. As doenças ósteo-musculares lideraram os episódios (27,9% dos casos de 10 de junho de 2010 a 9 de junho de 2011; 23,7%, de 10 de junho de 2011 a 9 de junho de 2012; e 34,4%, de 10 de junho de 2012 a 9 de junho de 2013). Os agravos mentais e comportamentais responderam, respectivamente, por 25,6%; 32,6% e 31,1% nos mesmos períodos.

Em Mato Grosso, o professor Ricardo Costa fez uma pesquisa com 200 professores e concluiu que 55,1% deles apresentavam cansaço mental; 52,2%, tinham sintomas de estresse; 42,9%, sofriam de ansiedade, e 42,9%, admitiram ter esquecimentos. A frustração acometeu 37,8% dos docentes; 31,1% tinham sintomas de nervosismo; 29,3% sentiam angústia; 29,1% sofriam com insônia; e 16,8% queixaram-se de depressão. A pesquisa foi feita em setembro de 2013.

O trabalho à base de antidepressivos

Não é difícil encontrarmos casos de adoecimento de docentes por transtornos mentais e comportamentais. As professoras de Enfermagem Maíra Toffer, da Universidade de Pelotas (UFPel), e Sirliane de Souza Paiva, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), são exemplos disso. Apesar da dificuldade de relacionar a doença ao trabalho, já que a considera multifatorial, Maira também atribui a crise de depressão que a acometeu em 2006 à intensificação e à precarização do trabalho. Prova disso é que viu casos semelhantes ao seu entre alguns outros docentes da Faculdade de Enfermagem.

“Percebo muitos colegas estressados, pois são muitas horas de aula. E pelo método construtivista, são muitos trabalhos a serem avaliados e uma relação docente-discente muito alta. No meu caso, atuo na graduação, mestrado e doutorado. O que me chama a atenção é que sempre temos alguns professores fazendo uso de antidepressivos para suportar a carga de trabalho. Outro problema são as cargas de trabalho acrescidas pelos meios virtuais. Estamos constantemente em contato com os estudantes, resolvendo problemas. Isso é um acréscimo não computado como carga a mais de trabalho”.

Por causa da intensificação e da precarização do trabalho, Sirliane Paiva adquiriu uma disfunção têmporo-mandibular (conhecida como bruxismo), reflexo do estresse. Durante o sono ou quando está trabalhando no computador, ela cerra os dentes com tal força que causou danos à musculatura facial e fratura nas raízes dos dentes. Já perdeu seis dentes por causa disso. Como não tem plano de saúde, boa parte do salário dela é revertida no tratamento dessa disfunção. Sirliane tem de fazer fonoaudiologia e frequenta três especialistas de odontologia. Alérgica, a professora de Enfermagem não pode tomar analgésicos. Por isso, sofre com uma dor que classifica de “nível dez”.

“É uma dificuldade muito grande porque você tem uma sensação de que não está ensinando tudo o que deveria e podia ensinar. É uma sensação de impotência e isso gera um estresse grande porque leva a pensar melhor as condições, aí você requisita professor e não há professor. É complicado. E no final há um prejuízo para o estudante e para o professor”, desabafa a docente. Ela afirma que a UFMA tinha sete mil estudantes. Nos últimos seis anos, por causa do Reuni, passou a ter 21 mil. E o quantitativo de docentes, que já estava defasado antes do programa de expansão, não foi reposto.

Explicações

Especialistas tentam explicar o que vem acontecendo com a saúde dos docentes à luz da psicologia e da sociologia do trabalho. “Esse tipo de relação que está se estabelecendo, essa precarização, sem dúvida, tem ampliado os problemas de saúde mental dos professores. O nível de depressão e obsessão aumenta. São sofrimentos psicológicos que vêm desse tipo de trabalho que o professor universitário realiza, sobrecarregado e precarizado. O que o sofrimento mental do professor fala para você? Ele diz assim: ‘Eu quero trabalhar direito e não posso. Eu quero educar e não consigo!’”, analisa o professor Wanderley Codo, pesquisador da UnB e coordenador do Laboratório de Psicologia do Trabalho.

O professor Sadi Dal Rosso, especialista em Sociologia do Trabalho, diz que a intensificação do trabalho docente é antiga, mas ele acredita que foi agravada pelo Reuni. “Isso se reflete, por exemplo, em maior número de turmas por professor, maior número de orientandos por professor. Você tem de corrigir mais trabalhos. Essas coisas representam um acréscimo de labor. Mas são problemas que já ocorriam anteriormente, estabelecidos pela pressão quanto à produção. Muito fundamentalmente pela avaliação da Capes, CNPq, que são, basicamente, os organismos avaliadores”, justifica.

 

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